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Quem (não) sou

De difícil compreensão. Com alguns medos. Com vontade de vencer. Ideais bem definidos. Futuro incerto. Presente feliz. Metafísica e abstracta. Que ama e é amada. Viciada em música, em livros e em política.

Quem (não) sou

De difícil compreensão. Com alguns medos. Com vontade de vencer. Ideais bem definidos. Futuro incerto. Presente feliz. Metafísica e abstracta. Que ama e é amada. Viciada em música, em livros e em política.

Ambivalência

Sinto-me estranha. Diferente. Para mim tudo foi sempre mais complicado. Não sei se isso quer dizer que sou egocêntrica, pois foco-me bastante nos meus problemas, mas sempre fui assim. Com a idade fui ficando mais selectiva. Não acompanho com qualquer pessoa. Sou criteriosa. Sinto más energias a léguas e sinto falsidades ainda mais de longe. Quando alguém não me inspira confiança, parece existir uma carga de energias negativas que me prende naquele momento. Sinto todo os meus órgãos colados, sinto os pés a pressionar o chão e tenho receio que o mesmo se parta e tenho muito medo de ir parar ao centro da terra onde está extremamente quente e morrer queimada. Por outro lado, pareço tremer por dentro, umas tremuras que vão até à alma, ao que de mais profundo temos dentro de nós e parece que vou gelar. E ao mesmo tempo que temo morrer queimada, temo também morrer gelada. Fossilizada como os animais pré-históricos. Sinto ainda um desconforto pouco usual como se o meu campo energético estivesse a ser completamente amarfanhado tal qual uma bola de papel que se quer colocar no balde do lixo; sinto, enfim um conjunto antagónico de sensações de tal forma reais que todo o meu corpo me começa a doer: desde a cabeça ao estomâgo. Sinto algo estranho no ar: uma impossibilidade de contactar com essa pessoa ainda que fale bastante com ela. É como se as nossas almas não se conhecessem nem o desejassem, como se tivessémos energias absolutamente diferentes e díspares e que não permitissem a nossa conjugação sequer enquanto seres feitos de matéria, feitos de carne.

Sinto-me estranha e diferente.

Diferente e estranha.

Ambivalente, vá.

 

                                                                                               16/10/2016

A cascata

Sento-me perto da cascata – uma cascata qualquer desde que seja bela, imponente e límpida – e cruzo as pernas. Aproximo a minha mão esquerda da mão direita e deixo-as cair no meu colo, posicionando-as de forma a que os dedos indicadores apontem para o meu umbigo – o centro energético do meu corpo, o que resta do cordão umbilical, o mais perto do que um dia fui. Endireito a coluna, semicerro os olhos e penso em tudo o que me aconteceu até aqui – como vim aqui parar? Quem sou eu? Quem fui? Como fui essa pessoa? Porque já não sou essa pessoa? -, penso especificamente no que me aconteceu hoje – Será que devia ter pedido desculpa e não pedi? Será que devia ter escolhido outra palavra? Será que a magoei? Poderia ter sido mais compreensiva com os outros ou mesmo comigo própria? -, penso no que poderei vir a ser – Será que vou atingir os meus objectivos? Será que vou ser sempre feliz? O que é ser feliz? Vou acabar como todos os outros: frios, insensíveis, mortos que se limitam a sobreviver? – e, por fim, recordo as palavras do meu instrutor, do meu amigo Salvador: «Ouve, querida, tens de relaxar. Como se não houvesse passado ou futuro, mas apenas presente. Contudo, mesmo o presente é um presente do qual te distancias – o que há de mal é só o que há de mal, nada mais. Faz o exercício da respiração como te ensinei: inspiras, expiras, inspiras, expiras.»

 

Estas palavras fazem sempre com que pense na quantidade de vezes que respiramos durante as 24 horas que compõem um dia e como não prestamos atenção nenhuma a isso. Como é que não nos sentamos, tentamos esquecer tudo à nossa volta e olhamos para dentro de nós próprios, tendo a perfeita noção do funcionamento dos nossos órgãos, da estrutura do nosso corpo, da profundidade da nossa alma, do nosso “Eu”? Como é possível que passemos a vida a correr – sem saber bem para onde – e não nos sentemos no banco do jardim a apreciar uma árvore, uma pedra, um cão, um pedaço de terra, o simples gesto bondoso de um velho que dá a mão ao seu neto? Que andamos a fazer aqui, afinal?

 

Oiço a água a correr na cascata. É como se me ouvisse a mim própria, os meus pensamentos correm uns atrás dos outros - «não chegues tarde», «deixa-me em paz», «já te disse que não vou voltar atrás», «não é aquilo que parece, a sério», «já te tinha avisado que não era assim que se fazia isso», «é impressionante o quão burra consegues ser» -, sem cessar, sem me dar tréguas. Quero que parem, quero que acabem, mas não - «Deixa os pensamentos passarem, com calma, lentamente, sem pressas. Lembra-te: o mais importante é que em ti tudo seja natural e nada seja imposto.», sussurra o Salvador aos meus ouvidos como se fosse um espírito, como se eu e ele comunicássemos por telepatia.

 

Volto a tentar. Sinto todo o meu corpo a adormecer, é como se fosse uma sensação de formigueiro em todo o meu corpo – sabem aquela sensação de quando são abraçados pela pessoa que amam? É isso que se sente um pouco antes de se atingir o nirvana -, deixo de ouvir o barulho límpido da água e só oiço o silêncio, o som mais puro, mais belo de todo o Universo: o som da Mãe, a Terra-Mãe que nos pariu, o som do Pai, o som do Pai que amou a Mãe, o som do Amor, o som da Paz. Sinto a minha respiração, sinto-a em todo o meu corpo, não quero sair daqui, quero estar aqui, ficar aqui, não quero abrir mais os olhos. Quero cegar. Ficar cega aqui – com o som silencioso da água, respirando com a consciência plena de que o faço, sem medo do futuro, sem o peso do passado ou a ânsia do presente -, ficar cega aqui e abraçar todo o Universo de uma só vez. Estar aqui – comigo -, estar aqui – contigo -, estar aqui – convosco -, cega, surda, muda. Sem sentidos, mas com todos eles tão apurados que, finalmente, sei o que é a felicidade. Pura.

 

                                                                                                                                               15/8/2012

Dantes as pessoas não morriam

Quando eu era pequena as pessoas não morriam. Aliás até à morte da minha avó, eu nem pensava nisso, nem sabia o que era isso de morrer. Se as pessoas estão aqui agora por que razão hão-de desaparecer? Ou se desaparecerem, hão-de voltar mais tarde - pensava eu.Quando a minha avó faleceu, eu chorei - não sabia ainda por que razão a minha mãe chorava tanto nem compreendi por que razão ela passou dias e dias que se tornaram em semanas a chorar convulsivamente. Hoje entendo. Agora, já bem mais velha, já maior de idade segundo a lei - essa coisa inventada pelos homens para regulamentar as nossas vidas - as pessoas passaram a morrer. E eu não entendo bem porquê. Se antes não morriam por que razão morrem agora? Se as pessoas desapareciam da minha vista, mas mal eu voltava ao lugar onde elas estavam, elas tinham permanecido lá? Era o que acontecia com a minha avó. Sempre que íamos ao Norte passar as férias - relaxar a mente desta turbulência citadina - ela estava lá, sentada no degrau da casa a fazer-nos mais umas mantas e sempre bem disposta. Ela nunca deixou de lá estar. Por isso não acredito que ela tenha morrido, falecido, desaparecido. Acredito que se voltar ao Norte ela estará lá. De facto nunca lá voltei. Coisas da vida. Tenho-me apercebido, após ver um amigo de longa data em estado terminal no IPO devido a um cancro no pulmão, que todos iremos inevitavelmente partir, falecer, morrer. Uns com cancro, outros num acidente de automóvel, outros com uma paragem cardio-respiratória, outros engasgados, outros afogados. Enfim. A verdade é que preciso que nós desapareçamos para outros poderem nascer. É um ciclo. Acho que o que custa é não sabermos o que acontece a seguir. Eu quero acreditar que acontece algo, seja o que for. Pois caso não aconteça nada cai-se no vazio existencial. Entendo isto, entendo que de facto as pessoas têm de partir, que estão apenas numa missão aqui na terra. O que eu não entendo é que quando era pequena as pessoas não morriam... Quando eu era pequena as pessoas eram eternas, imortais, tinham asas e voavam todos os dias mas acabavam por voltar. Nem sequer me lembro das pessoas ficarem realmente doentes. Só me lembro de ficarem velhas. Mas morrer? Morrer não. Será que só começaram a morrer quando eu fiquei mais velha? Ou será que as pessoas que me dizem ter partido mostrando-me os seus corpos mortos ou levando-me aos seus funerais, continuam a cirandar por aí, tendo mudado apenas de rotinas e de casas e de vontades e de desejos e de caminhos e de corpos? Bem me parecia... Afinal as pessoas nunca morreram, nunca irão morrer!... Elas estão aqui, pois é com a ajuda delas que reflito sobre esta merda que é a morte. Elas estão aqui pois nunca as esqueci nem esquecerei. Elas estão aqui para me mostrar que cada segundo desperdiçado a pensar na morte, a pensar na sua inevitabilidade é um segundo perdido, é um segundo que não voltará.

Mando então um beijinho a cada pessoa que está no meu coração e que já não existe fisicamente e agradeço por terem existido na minha vida. E por me ensinarem que, afinal, a morte não existe.

 

2/3/2014

Homens comuns

Este texto é sobre o homem comum. Digo-o para que quem o vá ler já saiba de antemão que irei destilar algum ódio (não sabia o que lhe chamar) aos pseudo-intelectuais. Este texto parece, para quem me conhece, um pouco contraditório. Eu que sempre adorei ler e estudar a criticar os pseudo-intelectuais?

Deixem-me explicar o meu raciocínio e vejam se ele pode fazer algum tipo de sentido. Como nos diz Osho, citando de memória, nunca são os homens comuns que se acham "salvadores da pátria", "salvadores da humanidade", mas sim os pseudo-intelectuais, aqueles que se consideram de alguma forma superiores aos comuns. Esquecem-se porém, como nos diz também Osho, que são esses os complexados. São pequenos, talvez mais até do que os comuns. Procuram no marxismo, no feminismo, no veganismo, no nazismo, no fascismo, no socialismo e em tantos outros "ismos" a cura para os males do mundo. Mas na verdade, procuram as curas para os seus próprios males. O mundo não precisa de ser curado. O mundo não padece de nenhuma doença. O mundo está bem tal e qual como está: o mundo é a natureza e essa, meus caros, é perfeita. De uma perfeição inalcançável pelo homem (comum ou incomum). O que precisa então de ser curado, meus caros, senão os homens?quer dizer, os Homens?

Lamento... Também ainda não é esse o meu ponto de vista. Ninguém precisa de ser curado. E, mais do que isso, ninguém pode achar-se no direito de curar o Outro, posicionando-se, mesmo que o não diga, num patamar superior em relação a este. Nós, seres humanos - uns mais humanos do que outros - apenas precisamos de ser Amados. Só o Amor poderá tornar os seres humanos mais humanos ou mesmo apenas humanos. Portanto, esqueçam todas as teorias político-filosóficas. Esqueçam Marx e a dialética marxista. Esqueçam os grandes teóricos do anti-semitismo como Rosenberg. Esqueçam o movimento feminista. Esqueçam o Gary e o movimento vegan. Estão confusos, certo? Se vos digo para esquecerem tudo isto e até o movimento pela libertação dos negros, o Rastafarianismo, o Cristianismo, o Judaísmo, a religião Adventista, o Budismo e todas as demais religiões, grupos de pensamento, teóricos, ensaístas, filósofos, políticos, literatos, então qual é a salvação para o Mundo?

Repito novamente: o Mundo não precisa de ser salvo. E todos os movimento que o dizem tentar fazer estão apenas a fraturar a humanidade em grupos que nos distanciam uns dos outros. A verdade é que se cria sempre a ideia de "nós" e dos "outros". Nós, os justos; nós, os corretos; nós, os morais; e os outros: os imorais, os injustos, os incorretos. Errado: estamos todos errados há milénios. Com este texto não desejo fazer um apelo à ignorância, mas sim à sensatez: olhemos os outros com benevolência e com Amor. Deixemos de nos colocar num plano superior a eles. Pois a verdade é que somos todos terra. A chegarmos ao céu, só será na hora da morte.

 

25/6/2014

O vil metal

«O dinheiro é apenas isso: dinheiro.» Disseste-me isto entre um sorriso e um leve toque no cabelo.

Acenei afirmativamente ao mesmo tempo em que sentia uma repulsa intelectual e emocional por ti. Deves viver numa sociedade diferente da minha: não capitalista. Provavelmente, num local em que o dinheiro não é Deus materializado, talvez vivas num sítio em que o vil metal assume boas características e qualidades espantosas.

É que aqui onde eu vivo o dinheiro não é apenas dinheiro. É fruta, seja ou não biológica; é pão, de centeio, cereais ou branco; é massa, integral ou refinada; é luz; é água; é autocarros ou carros; é roupa; é ainda roupa lavada: é tudo ou nada.

É a diferença entre ter ou não dignidade. Não lhe dares valor porque nunca soubeste o que era não o ter é que é só (e apenas) indignificante da tua condição humana. É mostrar que ainda estamos muito longe de algum dia definir o que isto de se ser humano. Se nos basta ter pés, mãos, braços, e andar a dois pés para nos podermos considerar seres humanos.

Vivemos numa sociedad estratificada em classes. E assim é desde que Marx o escreveu no século XIX. E assim tem continuado a ser. E receio, assim o continuará a ser no futuro.

 

                                                              4/10/2016

Mais um dia...

Mais um dia...

Levanta-te...

Desliga o despertador...

Abençoa o que tens ou resmunga entre dentes impropérios à tua vida e ao rumo que esta tomou...

Toma banho...

Toma o pequeno-almoço..

Sai e apanha o autocarro...

Ouve música...

Lê um bom livro...

Trabalha...

Trabalha...

Produz...

Produz...

Dá lucro...

Dá lucro...

Volta para casa...

Janta...

Veste o pijama, lava os dentes e vê um programa inculto na TV...

Vai dormir...

Lê novamente este texto...

Morre.

                                                                                       4/10/2016

 

Refazer(-me)

Vou-me curar. Vou-me curar escrevendo. Depositando nestas linhas todo o meu ser, toda a minha dor e mágoa. Também espero depositar igualmente a felicidade e a bondade que me são tão características. Não quero que esta depressão me defina, não quero ser lembrada desta maneira, como alguém com quem ninguém quer privar. Quero ajudar-te, Mariana. Quero que crescas, que consigas atingir o céu e que tenhas mais calma. Que tenhas calma suficiente para saborear a vida, a vida que a vida te deu. Vive. Vive mais. Tenta de outra forma. Amanhã é outro dia. Amanhã é mais um dia. Amanhã podes pensar de forma diferente. Amanhã podes alterar para sempre o teu padrão de pensamentos. Amanhã podes fazer a diferença, como tens feito sem saberes, na vida de mais alguém. Ajudares aqueles que passam pela tua vida é mais do que mudar o Mundo. É permitir que o Mundo continue, que a vida se permita a si própria existir.

Vou-me curar curando-me. Desta dor crónica que é pior do que qualquer doença terminal. Que não me permite ver a beleza da vida. Este despojo espirual que ficou lá para trás, mas lá para trás de facto não ficou. Que fazer? Apenas tentar ver mais longe, apenas tentar andar em frente. Não tenho qualquer alternativa a não ser mudar o meu padrão de pensamentos. Tentar perceber que não é a profissão que me deita abaixo; tentar perceber que não é o não atingir um corpo perfeito que me coloca neste buraco existencial; que não é a ausência dos que considerava amigos que me assola, mas sim algo que se situa nas profundezas desta alma: vazia, esgotada e completamente desprovida de vida. Foste tu. Foste tu que alteraste para sempre a minha vida

Mas vou-me curar. Escrevendo e curando-me. Curando-me e escrevendo-me.