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Quem (não) sou

De difícil compreensão. Com alguns medos. Com vontade de vencer. Ideais bem definidos. Futuro incerto. Presente feliz. Metafísica e abstracta. Que ama e é amada. Viciada em música, em livros e em política.

Quem (não) sou

De difícil compreensão. Com alguns medos. Com vontade de vencer. Ideais bem definidos. Futuro incerto. Presente feliz. Metafísica e abstracta. Que ama e é amada. Viciada em música, em livros e em política.

Dantes as pessoas não morriam

Quando eu era pequena as pessoas não morriam. Aliás até à morte da minha avó, eu nem pensava nisso, nem sabia o que era isso de morrer. Se as pessoas estão aqui agora por que razão hão-de desaparecer? Ou se desaparecerem, hão-de voltar mais tarde - pensava eu.Quando a minha avó faleceu, eu chorei - não sabia ainda por que razão a minha mãe chorava tanto nem compreendi por que razão ela passou dias e dias que se tornaram em semanas a chorar convulsivamente. Hoje entendo. Agora, já bem mais velha, já maior de idade segundo a lei - essa coisa inventada pelos homens para regulamentar as nossas vidas - as pessoas passaram a morrer. E eu não entendo bem porquê. Se antes não morriam por que razão morrem agora? Se as pessoas desapareciam da minha vista, mas mal eu voltava ao lugar onde elas estavam, elas tinham permanecido lá? Era o que acontecia com a minha avó. Sempre que íamos ao Norte passar as férias - relaxar a mente desta turbulência citadina - ela estava lá, sentada no degrau da casa a fazer-nos mais umas mantas e sempre bem disposta. Ela nunca deixou de lá estar. Por isso não acredito que ela tenha morrido, falecido, desaparecido. Acredito que se voltar ao Norte ela estará lá. De facto nunca lá voltei. Coisas da vida. Tenho-me apercebido, após ver um amigo de longa data em estado terminal no IPO devido a um cancro no pulmão, que todos iremos inevitavelmente partir, falecer, morrer. Uns com cancro, outros num acidente de automóvel, outros com uma paragem cardio-respiratória, outros engasgados, outros afogados. Enfim. A verdade é que preciso que nós desapareçamos para outros poderem nascer. É um ciclo. Acho que o que custa é não sabermos o que acontece a seguir. Eu quero acreditar que acontece algo, seja o que for. Pois caso não aconteça nada cai-se no vazio existencial. Entendo isto, entendo que de facto as pessoas têm de partir, que estão apenas numa missão aqui na terra. O que eu não entendo é que quando era pequena as pessoas não morriam... Quando eu era pequena as pessoas eram eternas, imortais, tinham asas e voavam todos os dias mas acabavam por voltar. Nem sequer me lembro das pessoas ficarem realmente doentes. Só me lembro de ficarem velhas. Mas morrer? Morrer não. Será que só começaram a morrer quando eu fiquei mais velha? Ou será que as pessoas que me dizem ter partido mostrando-me os seus corpos mortos ou levando-me aos seus funerais, continuam a cirandar por aí, tendo mudado apenas de rotinas e de casas e de vontades e de desejos e de caminhos e de corpos? Bem me parecia... Afinal as pessoas nunca morreram, nunca irão morrer!... Elas estão aqui, pois é com a ajuda delas que reflito sobre esta merda que é a morte. Elas estão aqui pois nunca as esqueci nem esquecerei. Elas estão aqui para me mostrar que cada segundo desperdiçado a pensar na morte, a pensar na sua inevitabilidade é um segundo perdido, é um segundo que não voltará.

Mando então um beijinho a cada pessoa que está no meu coração e que já não existe fisicamente e agradeço por terem existido na minha vida. E por me ensinarem que, afinal, a morte não existe.

 

2/3/2014